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24/03/2017

Por que tantos suicídios na Polícia Federal?

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Recente pesquisa feita por este jornal (edição de 18 de março) mostrou que 42 policiais federais cometeram suicídio entre 1999 e 2015.

 

O número assusta, pois para o povo esta profissão parece ser uma das mais cobiçadas, seja pelo “status” que confere, seja pela importância que tem hoje, seja pela cômoda remuneração, que a concorrência nos concursos demonstra.

 

A Polícia Federal paga pesado tributo pelo seu estafante trabalho. Pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB), já em 2013 revelava que “a depressão e a síndrome do pânico são doenças que atingem um em cada cinco, dos agentes da Polícia Federal. Em um tópico da pesquisa, 73 policiais foram questionados sobre os motivos das licenças médicas, 35% dos entrevistados responderam que os afastamentos foram decorrentes de transtornos mentais como depressão e ansiedade. Nos últimos dez anos, 22 agentes da Polícia Federal cometeram suicídio, sendo que 11 deles aconteceram entre março de 2012 e março deste ano. Uma média de quase um morto por mês” (blog “Diário do Poder” do jornalista Cláudio Humberto, 19/10/2013).

 

Entre março de 2012 e março de 2013, o número de policiais federais que se suicidaram assustou a corporação brasileira: 11 no total. Praticamente um por mês. Nos últimos anos, estudos, pesquisas e levantamentos demonstram que as questões ligadas à saúde psicológica dentro da Polícia Federal são preocupantes. Os sindicatos de diversos Estados do país denunciam o sucateamento da categoria.

 

Só para exemplificar, em junho de 2014, o delegado Eduardo Jaworski Lima, de 39 anos, foi encontrado morto em pleno ambiente de trabalho, no Mato Grosso do Sul. Diagnosticado com depressão, ele passava por tratamento, mas não estava afastado do cargo. Longe da mulher, também delegada federal, e da filha de dois anos, tirou a própria vida. Estresse, alcoolismo, ansiedade, depressão e síndrome do pânico afetam muitos servidores. Dentre 11 mil policiais entrevistados na época, dois mil afirmaram tomar algum tipo de medicamento para tratamento psicológico e psiquiátrico, de acordo com a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). O órgão denuncia a precariedade no setor: oficialmente, existem apenas um psiquiatra e cinco psicólogos para atender toda a PF.

 

O assunto dos suicídios intrigou a delegada federal Tatiane da Costa Almeida, que levou a questão para fora do país ao defender a tese de mestrado “Quero Morrer do Meu Próprio Veneno”,  no Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal. Para dar consistência ao trabalho acadêmico, ela entrevistou policiais federais e desenvolveu um questionário, que, posteriormente, foi aplicado a dois mil alunos da Academia de Polícia. A ilusão com a rotina da profissão é um dos pontos que provavelmente deprime o policial recém-ingressado na corporação. “Quando estamos na academia, vivemos um mundo cheio de coisas novas. Aprendemos a lutar, a atirar, nos acostumamos com a agitação. Quando você começa a trabalhar, não existe todo esse dinamismo”, frisa.

 

Muitas vezes, o trabalho da PF é burocrático. Para a delegada, o inquérito policial é o maior exemplo de procedimento desprovido de “aventura”. O curso feito na Academia de Polícia dura cerca de cinco meses e só pode ser realizado em Brasília. O desempenho nas aulas implica na aprovação ou não do candidato. E isto já é estressante. É nessa primeira etapa que se inicia um dos grandes agravantes da profissão: o isolamento. “Ficamos internados. Só podemos sair aos fins de semana. Todos ficam longe da família e dos amigos”, diz ela. O próprio site da Academia confirma a informação: “Para que os objetivos pedagógicos sejam alcançados, os alunos estão sujeitos a uma intensa rotina, sob regime de semi-internato, das 7h40 às 19h30, de segunda a sábado”.

 

A aprovação na PF não facilita a questão da distância, já que as primeiras ações acontecem em lugares inóspitos, como a Região Norte do país e as fronteiras. “Na falta de coisas agitadas pra fazer, o policial acaba ficando deprimido”, diz Tatiane. Para o diretor-adjunto da Fenapef, Flávio Werneck, o isolamento faz parte da profissão e não pode ser visto como motivo principal. A precarização do trabalho parece ser mais grave. “Quando você é mandado pra cidades de fronteira do Brasil, você não recebe apoio nenhum do departamento”, destaca. “Você vai às suas custas, tendo de pagar, inclusive, sua passagem pra ir lá. Você chega à cidade sem suporte pra moradia, hospedagem. Não te explicam o dia a dia do lugar, quais os riscos operacionais que você vai correr enquanto policial federal. E não tem um acompanhamento psicológico e psiquiátrico regular.” Nem sempre os casos de suicídio são divulgados na imprensa. Em nota, a Fenapef diz acreditar que um acontecimento desencadeie o outro, “como se os policiais tomassem coragem para tirar a vida também”. O tema é complexo. A própria assessoria de imprensa da PF se recusou a fornecer o número de policiais que tiraram a própria vida.

 

Na sua tese, Tatiane da Costa Almeida diz que “O número de psicólogos tem diminuído, porque agora a polícia está num sistema integrado de saúde junto com todos os órgãos do Executivo e talvez, devamos repensar e colocar mais psicólogos trabalhando diretamente com os policiais.” A terceirização também pode ser um agravante na relação médico-paciente. “O policial é muito isolado, muito desconfiado. Talvez ele tenha dificuldade pra falar com psicólogos que não sejam do quadro da polícia. Seria interessante termos um médico que conheça melhor o dinamismo do nosso órgão.”

 

Fruto de uma especial combinação de fatores negativos, internos e externos, o suicídio nunca foi uma tragédia de fácil explicação para a área médica nem para estudiosos da vida social. Lembrando que toda sociedade, em qualquer época, tem como finalidade essencial defender a vida de seus integrantes, o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917) demonstrou que o suicídio é a expressão mais grave de fracasso de uma comunidade e que raramente pode ser explicado por uma razão única. Ainda que seja errado apontar para responsabilidades individuais, a tragédia chegou a um nível muito grande, o que cobra uma resposta de cada parcela do Estado brasileiro que convive com esse drama.

 

O certo é que é preciso que envidemos esforços para dar tranquilidade e sobretudo condições adequadas a esses heróis anônimos, que estão mudando a face do Brasil, pois é patente que o próprio Governo, por baixo do pano, vem solapando a Polícia Federal para que as podridões não venham a lume.

 

E, sem trocadilho, esta recente operação “Carne fraca” mostra que a podridão é uma realidade, em número, gênero e grau.

 

 

Por Liberato Póvoa

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI -, escritor, jurista, historiador e advogado, liberatopovoa@uol.com.br)

 

 

Fonte: DM


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