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29/08/2017

Policial Federal lança livro sobre os voluntários do Estado Islâmico

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Após alguns anos de muito estudo e pesquisa, o agente da Polícia Federal e mestre em Relações Internacionais pela PUC Minas, Guilherme Damasceno, transformou em livro esse assunto tão polêmico que é o grupo terrorista do Estado Islâmico.

 

Capa das principais manchetes dos jornais e noticiários do mundo, o tema é abordado no livro “Passaporte para o Terror: Os voluntários do Estado Islâmico”, lançado no último dia 21, na Livraria Leitura, do Pátio Savassi, em Belo Horizonte.

 

 

 

A obra foi escrita em parceria com Jorge Lasmar, doutor em Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science, LSE, na Inglaterra.

 

 

Entrevistamos o agente Guilherme Damasceno, para entendermos os caminhos que levam um estrangeiro a se tornar voluntário do Estado Islâmico.

 

Acompanhe a entrevista:

 

Como surgiu a ideia de pesquisar e transformar em livro esse tema tão delicado que é o Estado Islâmico?

 

A pesquisa se iniciou com o fenômeno chamado “foreign fighters”, ou combatentes estrangeiros, que em 2011 começaram a se dirigir para a Síria no contexto da Primavera Árabe. Quando o grupo até então conhecido como ISIS declarou um Califado Islâmico e se autodenominou “Estado Islâmico”, iniciei o mestrado sob supervisão do professor Jorge Lasmar e passei a focar a pesquisa na ida de voluntários para esse grupo, o qual atraiu a maior quantidade de estrangeiros. Terminado o mestrado, que foi financiado pela PF, nos concentramos em atualizar e adaptar o texto acadêmico para livro.

Aproveito para agradecer à Polícia Federal pelo financiamento por meio de ação de capacitação, bem com à Interpol e a Divisão Antiterrorismo pelo aval à pesquisa, que me possibilitou inclusive fazer contato com colegas estrangeiros que trabalham na área.

 

Qual foi a principal conclusão apontada no livro sobre o que leva pessoas de várias partes do mundo a se tornarem um voluntário do Estado Islâmico?

 

A conclusão é que não existe uma explicação simplista para o fenômeno, tampouco para o envolvimento com o terrorismo. Nesse sentido, apresentamos os fatores que podem explicar a decisão de migrar para o EI em três níveis de análise: fatores externos, intermediários e internos ou psicológicos. Nosso argumento é que a radicalização deve ser entendida como uma combinação de fatores desses três níveis. Em cada indivíduo, essa combinação acaba acontecendo de uma maneira particular.

 

Como pode ser descrito o perfil desses voluntários? Existe um público alvo?

 

Esse é um dos pontos. Não há um perfil ou padrão de radicalização. Os fatores que parecem prevalecer nos voluntários de um determinado local costumam variar muito conforme o país de origem. Essa é uma conclusão que serve para o terrorismo de modo geral. Não é possível encontrar um perfil para o terrorista.

 

Existem voluntários da América Latina?

 

Sim, existem. Embora o Brasil não tenha dados oficiais, alguns pesquisadores estrangeiros falam em 3 ou 4. Mas isso vai depender também do critério. Há casos de filhos de brasileiros que nasceram e viviam no exterior que migraram para o EI. Embora não necessariamente tivessem passaporte brasileiro, teriam a possibilidade de obtê-lo.

Há casos relevantes envolvendo chilenos, argentinos, venezuelanos. Chama a atenção especial o caso de Trinidad y Tobago, no Caribe, de onde saíram mais de 100 voluntários.

 

Como é realizado o processo de recrutamento? Existe um pré-requisito para ser um voluntário?

 

O recrutamento pode ocorrer em vários níveis e é complexo. Muitas vezes é o próprio voluntário de forma ativa quem busca o contato com o grupo ou pesquisa como migrar para o conflito. Nesse processo, a rede de amigos e familiares costuma ser decisiva, pois pesquisas mostram que mais de 80% dos estrangeiros chegaram à companhia ou atraídos por amigos ou por familiares que o antecederam na decisão de migrar. Há também muitos casos em que indivíduos vulneráveis são identificados na internet e começam a ser alvos dos recrutadores. Quando não são convencidos a migrar, são incentivados a fazer ataques domésticos, como tem acontecido na Europa.

 

Como funciona o “marketing” desse grupo terrorista para atrair novos voluntários?

 

A propaganda do EI é extremamente profissional e sofisticada. Estudamos a fundo as publicações oficiais do grupo. São extremamente perspicazes ao perceber que tipo de insatisfação prevalece em cada tipo de potencial voluntário e conseguem customizar a narrativa segundo o público alvo. As estratégias nas produções voltadas ao público ocidental (em inglês) são distintas das voltadas aos países de maioria muçulmana (em árabe). A narrativa para atrair mulheres também se altera dependendo do país de origem da potencial voluntária. Além disso, possui um exército de apoiadores e disseminadores de sua mensagem.

 

De onde vem o dinheiro que financia o Estado Islâmico?

 

Embora haja rumores de financiamento externo vindo de doadores privados de países árabes, as atividades do EI são financiadas por atividades múltiplas desempenhadas pela própria organização, como extração e venda de petróleo, cobrança de taxas (extorsão) sobre todo tipo de atividade e serviços prestados dentro de seus territórios, venda de escravos e antiguidades, contrabando, apropriação dos bens das vítimas etc. A forma de financiamento é totalmente híbrida. Comporta-se em alguns momentos como um Estado, ao cobrar “impostos” de seus cidadãos ou explorar atividades econômicas como a extração de petróleo. Em outros momentos, age como uma máfia, extorquindo e cobrando taxas sobre basicamente tudo que ocorre dentro de seus territórios. Por último, atua como uma organização criminosa transnacional, quando faz contrabando de cigarros, vende antiguidades no mercado negro ou trafica pessoas.

 

O grupo Estado Islâmico ainda pode ser considerado um dos mais perigosos do mundo? Por quê?

 

O EI assumiu nesta década a proeminência no chamado “movimento jihadista global” e tem atualmente a Al Qaeda como rival e concorrente. Seu sucesso se deve a muitos fatores, como suas táticas de recrutamento e uma incrível habilidade na utilização da internet e redes sociais. No entanto, é importante alertar que a Al Qaeda não está derrotada. Embora ela esteja atualmente focando seus esforços em algumas causas locais, como na insurgência contra Assad na Síria, infelizmente, é de se esperar que ela retorne ao terrorismo internacional.

O EI é uma organização político-militar e considerá-lo um “grupo terrorista” não ajuda na compreensão dos fatores que estão por detrás do seu surgimento. O surgimento e o crescimento do Isis são sintomas de uma crise política regional mais ampla. Ela reflete a desfragmentação e deslegitimação das instituições dos países da região, ocorridas ao longo de décadas de conflitos e instabilidade. E terrorismo é somente uma das táticas utilizadas pelo grupo.

 

Acesse o LINK da editora para adquirir o seu exemplar. O SINPEF/MG também tem alguns exemplares disponíveis para venda em sua sede.

 

 

 

Fonte: Comunicação SINPEF/MG

 

 


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