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31/01/2017

Não sirvo para a nossa Polícia

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Sou policial há 20 anos e nada tenho contra os bacharéis em Direito. Mas tenho a impressão que boa parte desses bacharéis e suas entidades reguladoras julgam que todos os outros cursos superiores do país são, na verdade, inferiores ao seu. Escrevo isso tomando como referência o edital para o último concurso para oficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que tem como requisito ser bacharel em Direito.

 

Quer dizer então, que os engenheiros, médicos, administradores entre outras dezenas de profissionais não têm capacidade de coordenar ações da polícia ostensiva, que é a PM? Então estávamos imersos na incompetência dos atuais oficiais, dos aspirantes aos coronéis, que cursaram a Escola de Formação de Oficiais? Se essa mesma escola já servia como ente repetidor dos abismos sociais, deixando para a classe média a exclusividade de comandar a corporação, o que dizer desse concurso, no qual apenas os “doutores” têm acesso?

 

Será que alguém em sã consciência acredita que nosso modelo de investigação é eficiente? Cobram tanto da polícia e não fazem a menor ideia do quanto somos diferentes do resto do mundo, com um modelo singular, burocrático e que leva a aberrações como inquéritos em andamento com mais de uma década de existência.

 

Fiquei admirado ao perceber que baluartes dos Direitos Humanos em nada se empenharam para barrar essa incoerência em nossa polícia militar. Criticam tanto a corporação e fazem pouco ou quase nada para que ela deixe as amarras que a prendem ao século XIX, impedindo-a de ingressar em um mundo minimamente moderno.

 

Não deveria estar espantado. Uma sociedade que acha normal um exército de policiais seja dizimado todos os anaos, colocando nesses mesmos homens e mulheres mortos, a responsabilidade por tal violência, jamais teria olhos agudos para estudar com profundidade a estrutura arcaica na qual a segurança pública do Brasil está mergulhada. Mais fácil culpar as pessoas, que enxergar o quanto somos singulares e ineficientes em relação ao resto do mundo.

 

Por que tanta veemência? Talvez por sermos um país que elucida menos de dez por cento dos seus homicídios. Talvez por observar incrédulo, presos que mandam em nossas vidas, comandando seus homens armados de dentro de presídios, onde, em tese, deveriam estar cumprindo medidas de reeducação. Não causa espanto para você, ver um detento usando celular em uma prisão? Se não fica espantado, é porque não se daá conta do lodo no qual tentamos nos mover.

 

E então vêm nossos especialistas, com uma solução como esta, apresentada para o último concurso da PM. Criar uma espécie de "reserva de mercado". Existem cadeiras de administração, de liderança, de gerenciamento de crises, de condicionamento físico, de psicologia, de serviço social no único curso do qual sairão os novos oficiais?  Porque, para ser policial ostensivo, ponta de lança, o primeiro a combater bandidos armados, é preciso bem mais que conhecer noções das leis vigentes no Brasil. Mais uma vez, o retrocesso.

 

 

Por Sandro Araújo

 

O vereador da Câmara Municipal de Niterói e policial federal Sandro Araújo é responsável pelo projeto social Geração Careta e fala sobre segurança pública e o crescimento da violência em todas as esferas da sociedade.

 


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